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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Idos amores

                                                             Ademir Braz

O espelho me devolve a barba de vários dias:
umas cerdas brancas, duras, de velho cuandu.
Deve ser esse fascínio dos 600 anos... Para onde
fluíram em maciez e furor as antigas manhãs?
Onde as noites nevadas de espuma? Onde
o espanto de fardos e fados rarefeitos, verbo
em sangue no guardanapo dos botequins?

O cuandu ri no espelho... Envelhecer é isto?
Esse tumulto com os signos, este enorme,
colossal desapego à posse do supérfluo?
Que é o essencial, quando tudo esvaiu-se?
Ainda gosto de árvores, ternura e afagos;
de cães sarnentos e gatos de beco. Trago n’alma
a enseada morna que os abriga e aos amigos.
Grandes, por igual, são minhas amarras às coisas
que sejam pássaros, mar, plantas e silêncio.

Dessas coisas claras, certifico. Mas o que faço
das lembranças, tumultuárias buganvílias?

Os amores, comparo-os às tainhas de Maiandeua.
Quando as vi, na vez primeira, pareciam milhares
a saltar entre a praia do porto e o manguezal.
Se o tempo as trazia, em época exata de chuva e sol,
fervilhava o mar sob redes e barco, e  pescadores
colhiam mais cardumes que poderiam consumir
ou vender e que, mortos, relançados às marés,
prateavam de escama a fímbria macia do areal.
Tanto o desperdício que, não muito depois,
rarearam até sumir ao longe na costa do Marajó.

(As tainhas que amei, também migraram. Foram
acasalar  bem longe da minha rede de pescador.)

Esses idos amores, contudo, conservo todos aqui
(ainda que tenham durado a sina de uma rosa)...

A muito amada sentou-se no muro e por trás dela
eu via a luz da casa com o brilho velado da vidraça.
Era um lugar de nome indígena, algo quase assim:
a muito amada vinha do colégio e eu, de muito longe:
da terra mesopotâmica do sol, a mochila encardida
do pó que o vento espalha ao norte dos agrestes.
Lá nos conhecemos, vivíamos, lá um bêbado amou-a
com amor que o fez perder-se dos parceiros de balcão.
Mas ela mudou-se e fui revê-la num insano impulso
e dei com esse vento de soturna lágrima e adeus.
Penso às vezes que morri naquela noite de pétalas
e transmutei-me em pássaro sem abrigo ou canto
e desde então peregrinei sem causa à parte alguma.
Sim, é quase certo que morri naquela noite de pétalas...

Em Romana, andávamos nus, a companheira
a espiar navios feéricos sobre o verde mar.
Tão distantes e misteriosos!... À noite, apenas
vela acesa na curva imaginária do horizonte
enquanto nos amávamos sobre palafitas.

Na cidade de cal, perdida no silêncio do cerrado,
a namorada levou seu visitante a um lugar estranho
- o centro geodésico de alguma coisa – onde havia
uma placa, seixo sem valor e um círculo cimentado
para receber alienígenas e discos voadores.
Lá, sentamo-nos na grama e não vi luzes na manhã.
Trouxe no bornal - e ainda deve estar aí nalguma parte -
um punhado de cascalho sujo e mítico, talvez resto
do que fora  abissal rochedo de  oceano profundo.

Eu olhava a luz a crepitar na chuva da madrugada.
Bebia aguardente e cerveja no bar soturno (só o dono
atrás do balcão) e olhava a luz imunda na rua insone.
Eu era só um artista sem certezas, e a cidade um pássaro
morto sob a chuva. Esse vulto em branco, entretanto,
está bem vivo e úmido à porta, os seios de romã, a face
alada do arcanjo que vai levar-me a qualquer parte.
Alva e transparente no vestido longo, ela pede vodka
e solta o corpo esguio numa cadeira mais ao longe.
Ergo-me e dou a mão ao fado inscrito na noite suja.
Então ela canta, e me dou conta que morrerei esta noite,
fugiremos para as estrelas acima da tempestade, rumo
às galáxias e outros sóis. Nunca mais voltarei! Mas antes
de largar-me quase morto à margem do trago e das taças,
três dias nos amamos entre  cachoeira e saranzais.
                                                                 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Divino: Beleza e Fé Popular em Festa na Serra das Andorinhas

A produção de um material em video-documentário sobre o Festejo do Divino Espirito Santo na Serra das Andorinhas, surgiu de um compromisso firmado junto aos camponeses e romeiros participantes do festejo no ano de 2010 em retornar em 2011 com imagens que registrassem a beleza de sua fé e festa. Promessa aos romeiros e ao Divino.
Isto ocorreu quando nossa equipe havia visitado a Serra das Andorinhas para entrevistar alguns personagens da região que foram testemunhas do episódio da Guerrilha do Araguaia, sendo que na oportunidade subimos a serra até a Casa de Pedra, local do festejo, para conversar com "Seu Beca", organizador do festejo, romeiro, camponês e um sobrevivente da época da Guerrilha do Araguaia. Tanto a entrevista como as imagens do festejo estão compondo um outro documentário em produção [Araguaia Campo Sagrado].
Assim, mas que registrar em clipe o festejo, resolvemos também produzir um pequeno documentário [Divino] que socializasse ao mundo a fé, beleza e vida em festejo na Serra das Andorinhas. A demo que apresentamos desse documentário foi apresentada em uma sessão de cinema [com telão e tudo mais] no penúltimo dia do Festejo do Divino, dia 18 de junho, lá no alto da Serra das Andorinhas, sob um magestoso céu estrelado e diante de um público de olhar atento e brilhante e semblante carregado de um discreto sorriso, orgulhoso e felize, por sua fé e festa, camponeses romeiros, homens, mulheres, jovens, idosos e crianças, gente simples que sobe 6 km de serra a pé para encontrar-se com algo que palavras são incapazes de definir, um momento Divino.
Valeu a pena voltar um ano depois. Valeu a pena subir parte da trilha com a caixa de som amplicida no ombro. Valeu o cansaço, suor e lágrimas.

Assistam camaradas, a beleza e fé popular ainda pulsa em festa nos lugares mais incriveis que possamos imaginar.
 
Abraços
 
Evandro Medeiros / Fábio Oliveira / Waarlen Lourenço
[LaBour Filmes - Marabá / Pa]
 
 
Parte 2
 
Parte 3

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Márcio Mazzini, o azul e as palavras



                   Em uma fotografia de Walda Marques



Nem sempre há uma
                                      segunda
                                               chance
                                                        de um outro olhar.

A mão, toma e
                   recebe,
                             as mariposas
                                               que iluminam
                                                        a memória imaginária.

Anônima mão,
                   que toma o
                                 anônimo prato.

O barco, a ilha, a mão.


               Continentes.

                                           
                                     Um outro olhar,
                                                          uma noite.


                                                                   Belém – Pa  maio 2003









De noite quando ainda chove em julho





sombra
lí
q
ui
da

e

g
ri
t
os.



                                         Caracaraí – RR 1990











Azul,
azul





                                      

Criar um mundo azul
                                      
                                                        Onde tudo seja azul

                                                                      

Até o azul









azul,
Azul.





Belém – Pa 1984
















Vinte anos esta noite

                                                       “…E existem tantas auroras
                                                                 que não brilharam, ainda…”
                                                                                  Rig Veda 7, 76




                   Vinte anos esta noite.
                   Depois de tantas noites:
                   Sete mil e trezentos
                   e cinco noites           -   exatamente  -

                                                        incluindo noites bissextas.


                   Foi uma imensa noite:

                                                Ainda faz escuro,

                                                                           ainda.

                   A noite é quase finda,

                                               e estamos tão velhos, agora.





                                                                                                                                                                                            Manaus – AM dezembro/2002

sexta-feira, 27 de maio de 2011

De nada servem ciência e religiosidade num mundo de ignóbeis!

Numa sociedade produtora de inimagináveis constructos teóricos-científicos-tecnológicos, onde informações de todos os tipos circulam livremente em conexão global e são acessadas a baixo custo em qualquer casa digital, vivemos um tempo de profunda contradição: “os livros das estantes parecem servir para qualquer coisa, menos para serem lidos!”.Não, este não é um discurso contra as tecnologias e em defesa da forma secular de sistematização e socialização de conhecimento, escrita à tinta no papel [livros!]. 
É uma tentativa da defesa do uso sábio das idéias! Tanto livros como computadores são instrumentos que de nada servem se os usuários não possuem capacidade real para manuseá-los na leitura e produção de idéias que levem a tomada de atitudes e ações humanas sensatas, criticas e criativas [a tal racionalidade!] sobre o mundo e na construção de uma sociedade mais justa e com melhores condições de vida para todos [o tal desenvolvimento!].
Da negação dos postulados científicos sobre a crise ecológica à afirmação do progresso sob olhos fechados aos impactos sócio-ambientais, por entre a construção de florestas de eucalipto carvão-em-pé surda aos alertas sobre os perigos da extinção da biodiversidade, diante do descaso geral sobre a expropriação do subsolo para interesse estrangeiro que gera a multiplicação desem-terras, sem-teto, sem-empregos, sem-renda, sem-futuro e trabalho escravo... 
Nesta região são tantos os exemplos das contradições que marcam à chamada “Sociedade da Informação e do Estado de Direitos”!
Tantas são que algumas delas parecem inexpressíveis: em Marabá, no núcleo da Cidade Nova, no trevo da Avenida Tocantins com Rua Castelo Branco, sem consultar os moradores, árvores com 20 anos de idade [assim me disse uma moradora] foram derrubadas, trabalhadores do comércio popular e seus carrinhos de lanches desalojados, banquinhos de praça destruídos... Pra quê? 
Para instalar ali um quiosque de biblioteca pública! 
No trevo em meio ao barulho e a alta circulação de carros! 
Sobre o sepulcro das árvores! 
Sobre o desrespeito com a população! 
Sobre a irresponsabilidade com os trabalhadores informais!
E no mínimo como ato de ignorância sobre as condições de segurança e acesso, logística e ambiente necessário a organização de um espaço de leitura pública! 
Tudo poderia ser feito em outro lugar, sem tais transtornos, ali mesmo, na esquina do SESI, aproveitando as calçadas largas, combinando o quiosque com a pequena árvore de flores vermelhas que lá habita e democratizando o acesso aos livros de forma sábia... 
Mas talvez fosse pedir demais a inteligência dos que administram o município. 
São nos pequenos [inexpressíveis] atos que se constata a incapacidade de feitos grandiosos [governança]!Quando os livros servem apenas de adorno na estante, as folhas caem, as árvores padecem, o povo sofre e, talvez por isso, até mesmo a Bíblia, lida mas não entendida, é tomada à justificativa deinsanidades e incompetências governamentais. 
Se Deus existe, por favor, nos socorra, Marabá e esta região precisam de uma ajuda extra-humana! 
Evandro Medeiros - Professor da UFPA – Campus de Marabá)

sábado, 21 de maio de 2011

Parsifal Pontes, caboclo do Tocantins


Rio Tocantins

Tocantins quando eu nasci,
ouviste quando eu chorei.
Chorava de amor por ti,
minhas lágrimas te dei.

Tocantins eras meu rio.
Mais que um rio, eras meu mar.
Nas noites negras de frio,
escutava tu passar.

Passavas bem de mansinho,
devagar a deslizar.
O caboclo zé fininho,
nem precisava remar.

Nas tuas costas levavas,
muita estória pra contar:
desde o cavalo de asas,
às juras de amor ao luar.

Eras tu que me levavas,
para em tuas águas brincar.
Eras tu que me chamavas,
querendo me carregar.

Tanta vontade eu tenho,
daquele tempo voltar.
Hoje já a ti não venho,
os meus prantos lamentar.

Eu cresci, virei adulto.
O encanto se quebrou.
Da criança, nem o vulto.
O menino se encantou.

Foi embora nas tuas águas,
em cima de um mururé.
E se perdeu nas tuas vagas,
no encontro da maré.

Cobra grande o engoliu,
mãe d’água o enfeitiçou.
Quem sabe foi no navio,
que na enseada aportou.

Tu também, meu caro amigo,
de ti mesmo descuidou.
Te desgostaste contigo?
Ou comigo que aqui estou?

Aquela ilha, onde está,
que mais parecia um mundo?
Olho e só vejo por lá,
mato triste e moribundo.

E o pedral onde ficava,
aquele cavalo encantado,
Que tinha o rabo dourado?
Tudo perdido. Acabado.

E os gaviões da montanha?
Onde foi aquela gente?
Que diferença tamanha!
Tudo está tão diferente!

Que a vida nos tome a nós.
Bravo rio, meu bravo mar.
Tu em busca da tua foz.
Eu buscando o meu lugar.

São caminhos divergentes,
os que devemos trilhar.
Mas por mais que eu me ausente,
sempre venho te encontrar.

Vais sempre ser o meu rio.
Vais sempre ser o meu mar.
Do menino que fugiu.
Ao homem que vês chorar.

E quando um dia eu me for,
desta para outra vida.
Não chores, não sintas dor,
não será uma despedida.

Eu volto, meu caro amigo.
Uma lenda há de nascer.
Hei de me encontrar contigo,
logo depois que eu morrer.

Nas noites de lua cheia,
se alguém te olhar vai me ver,
Brincando com tuas sereias,
gargalhando de prazer...


Ícaro sem asas

Ai serras da minha terra
Ai mares que só são rios
Ai terras destas planícies
Que planaltos querem ser
São verdes estes meus vales
São negras estas crateras
São terras do meu viver.

Quero cantar estas plagas
Quero boiar nestas vagas
Mergulhar nestas chapadas
Morrer nestas madrugadas.
Correr por entre estas terras
Dormir no cume das serras
Pra depois ressuscitar
Nas asas desta agonia
Nestes rios que só são mar.

Como eu amo estas paragens
De planícies sorrateiras
De finadas cachoeiras
Dos galhos das castanheiras
Que hoje são invernadas
Destas terras já queimadas
Que hoje são capoeiras.

Que depois da coivara
Se deitam nas ribanceiras
E matam a sede do chão
E brotam como semente
Deste meu peito silente
Que ampara esta solidão.
A solidão destas serras
Das planícies desta terra
Que planaltos querem ser.

Voando nestas paisagens
Feito um Ícaro sem asas
Com asas no coração
Com o coração nesta terra
Com esta terra na mão
Que afaga o verde das matas
Que rola pelas ladeiras
Que cai nestas capoeiras
Que bebe nestes riachos
Que aqui busca regaço
Pro apertado coração.

Coração que é uma planície
Deitado sobre esta terra
Que bate e que se agonia
Que baila e que rodopia
Do alto desta paisagem.

Que mergulha neste rio
Que treme quando faz frio
Que chora quando se lança
Que para quando se cansa
Que levanta em frenesi
Quando a vida se faz curta
Quando o tempo não escuta
Quando é breve este porvir.

Coração apaixonado
Que grita em peito calado
Que voa como andorinha
Nestas terras e estas serras
Nestas curvas deste rio.

Coração não te aquieta
Não bate assim devagar:
Explode nestas quimeras
Espalha-te nestas serras
Deste Sul do meu Pará!


O porco d’água

O rebojo estoura em branca vaga.
A vaga em branca espuma se transforma.
Na espuma se debate o porco d’água.
Na água feita pedra o suor jorra,
Salgando o Tocantins com o peito em mágoa.

Procura em desespero uma paragem.
O aço em suas mãos às costas traça.
A vida o faz nadar, não a coragem.
A fé o faz viver, não a desgraça.
Não o mundo o faz sonhar, mas a viagem.

O ronco do motor soa no ar.
O barco em suas mãos está então.
Não ouse o porco d’água fracassar.
Não ousem os seus esforços serem em vão.
Seus olhos logo achem onde amarrar,

Pois cá no bolinete pronto estão,
Marinheiros febris a esperar
A mão do porco d’água a acenar
Em sinal de sucesso e de descanso,
O barco rio acima se içar.

Ele agora sossega no remanso.
Como ariranha deita as cotas a remar.
Mergulha, olha as pedras, na esperança
De sempre um diamante a vadiar.
E bóia como aninga que se lança

Do fundo para a tona em espinhel.
E pula, pedra em pedra, vaga em vaga.
E agarra no passeio do motor
Que já em mansas águas se balança,
Depois que o cabo ao bolinete se esgotou.

Num salto já está na casinhola,
Pingando o Tocantins do corpo inteiro.
Nem lembra mais da liça, pois agora,
O Rio já manso acalma o marinheiro.

Toma um moca quentinho, em esmaltada
Caneca que na lenha se ferveu.
Na camarinha pisca à moça, inda espantada,
Contado do rebojo que venceu.

No convés se deita olhando o Sol
Que seus olhos em sonhos faz fechar.
Quando os abre se espanta, é arrebol,
A lua já a pouco vai brilhar.

Porco d’água, teus sonhos e tua luta,
Mergulharam no castelo da Iara.
De lá ninguém mais teu grito escuta.
Calaram, como a Capitariquara.

Saudades de ti garboso infante.
Teus feitos muito ainda hão de brilhar
Tão claro como brilham os diamantes,
Teus sonhos outros sonhos vão sonhar...


Canoa tocantina

Canoa que de tardinha,
Com o Sol quase morrendo,
Passa às margens da Matinha,
Com o Tocantins correndo.

Desliza o Rio com carinho.
O remo à popa batendo,
Afunda devagarinho,
Sutil rebojo fazendo.

Nas costas do velho Rio,
O caboclo vai remando.
Da tarde curto o pavio,
Vai pra casa regressando.

As luzes do cais do porto,
Já ensaiam se acender.
O vento, que é leve e solto,
Vem as águas remoer.

A canoa baila solta,
Na mareta que se enruga.
O caboclo o remo amoita,
Para ao casco não dar fuga.

Vai descendo de bubuia,
Mais parece mururé.
Passa em frente do fubuia,
Cheirando a tucunaré.

O farol na ponta avista,
Quase em casa pra chegar.
O vento assopra e ele pisca,
Lembrando de Cametá.

O Sol agora é finado
E a canoa sombra é,
Mas não tem pressa o danado.
Tocantins não tem maré.

Canoa, toma cuidado!
Tu não tens nem lamparina...
Facilitas um bocado,
Navega pela beirinha.

No remo o caboclo descansa.
Do bolso o porronca tira.
A Lua pro alto avança,
Mas é no Rio que se mira.

Já na feira a barca passa
E o porronca no final.
O caboclo, a proa traça
Na direção do Mangal.

A canoa sabe o rumo
E acelera o remo o passo.
O caboclo pega prumo
E dá cadência ao compasso

Rema, caboclo, ligeiro!
Pois enquanto tu tragavas,
O vento, morno e faceiro,
Em teu barco viajava.

Se não cuidares na reta,
Vais chegar na ponta grossa:
A pirarara te pega
E a cobra grande te enrosca.

O caboclo aperta o remo
E a canoa faz bigode
Num Tocantins já sereno.
Afinal, o caboclo salta,

No raso da ribanceira.
A Lua já brilha alta
E a canoa sobe à beira
Pelo caboclo puxada.

Agora descansa em terra,
Vai dormir iluminada.
Ser pasto de vaga-lumes
E só acordar na alvorada.

E de novo correr água,
Fazer mais uma empreitada.
Esta sorte é que lhe cabe,
Quando finda a madrugada.

E voltar de novo ao porto.
Vai ser sempre esta a sina.
Do caboclo leve e solto
E da barca tocantina...