sexta-feira, 17 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Márcio Mazzini, o azul e as palavras
Em uma fotografia de Walda Marques
Nem sempre há uma
segunda
chance
de um outro olhar.
A mão, toma e
recebe,
as mariposas
que iluminam
a memória imaginária.
Anônima mão,
que toma o
anônimo prato.
O barco, a ilha, a mão.
Continentes.
Um outro olhar,
uma noite.
De noite quando ainda chove em julho
sombra
lí
q
ui
da
e
g
ri
t
os.
Caracaraí – RR 1990
Azul,
azul
Criar um mundo azul
Onde tudo seja azul
Até o azul
azul,
Azul.
Belém – Pa 1984
Vinte anos esta noite
“…E existem tantas auroras
que não brilharam, ainda…”
Rig Veda 7, 76
Vinte anos esta noite.
Depois de tantas noites:
Sete mil e trezentos
e cinco noites - exatamente -
incluindo noites bissextas.
Foi uma imensa noite:
Ainda faz escuro,
ainda.
A noite é quase finda,
e estamos tão velhos, agora.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
De nada servem ciência e religiosidade num mundo de ignóbeis!
Numa sociedade produtora de inimagináveis constructos teóricos-científicos-tecnológicos, onde informações de todos os tipos circulam livremente em conexão global e são acessadas a baixo custo em qualquer casa digital, vivemos um tempo de profunda contradição: “os livros das estantes parecem servir para qualquer coisa, menos para serem lidos!”.Não, este não é um discurso contra as tecnologias e em defesa da forma secular de sistematização e socialização de conhecimento, escrita à tinta no papel [livros!].
É uma tentativa da defesa do uso sábio das idéias! Tanto livros como computadores são instrumentos que de nada servem se os usuários não possuem capacidade real para manuseá-los na leitura e produção de idéias que levem a tomada de atitudes e ações humanas sensatas, criticas e criativas [a tal racionalidade!] sobre o mundo e na construção de uma sociedade mais justa e com melhores condições de vida para todos [o tal desenvolvimento!].
Da negação dos postulados científicos sobre a crise ecológica à afirmação do progresso sob olhos fechados aos impactos sócio-ambientais, por entre a construção de florestas de eucalipto carvão-em-pé surda aos alertas sobre os perigos da extinção da biodiversidade, diante do descaso geral sobre a expropriação do subsolo para interesse estrangeiro que gera a multiplicação desem-terras, sem-teto, sem-empregos, sem-renda, sem-futuro e trabalho escravo...
Nesta região são tantos os exemplos das contradições que marcam à chamada “Sociedade da Informação e do Estado de Direitos”!
Tantas são que algumas delas parecem inexpressíveis: em Marabá, no núcleo da Cidade Nova, no trevo da Avenida Tocantins com Rua Castelo Branco, sem consultar os moradores, árvores com 20 anos de idade [assim me disse uma moradora] foram derrubadas, trabalhadores do comércio popular e seus carrinhos de lanches desalojados, banquinhos de praça destruídos... Pra quê?
Para instalar ali um quiosque de biblioteca pública!
No trevo em meio ao barulho e a alta circulação de carros!
Sobre o sepulcro das árvores!
Sobre o desrespeito com a população!
Sobre a irresponsabilidade com os trabalhadores informais!
E no mínimo como ato de ignorância sobre as condições de segurança e acesso, logística e ambiente necessário a organização de um espaço de leitura pública!
Tudo poderia ser feito em outro lugar, sem tais transtornos, ali mesmo, na esquina do SESI, aproveitando as calçadas largas, combinando o quiosque com a pequena árvore de flores vermelhas que lá habita e democratizando o acesso aos livros de forma sábia...
Mas talvez fosse pedir demais a inteligência dos que administram o município.
São nos pequenos [inexpressíveis] atos que se constata a incapacidade de feitos grandiosos [governança]!Quando os livros servem apenas de adorno na estante, as folhas caem, as árvores padecem, o povo sofre e, talvez por isso, até mesmo a Bíblia, lida mas não entendida, é tomada à justificativa deinsanidades e incompetências governamentais.
Se Deus existe, por favor, nos socorra, Marabá e esta região precisam de uma ajuda extra-humana!
Evandro Medeiros - Professor da UFPA – Campus de Marabá)
sábado, 21 de maio de 2011
Parsifal Pontes, caboclo do Tocantins
Rio Tocantins
Tocantins quando eu nasci, ouviste quando eu chorei. Chorava de amor por ti,minhas lágrimas te dei.
Tocantins eras meu rio .Mais que um rio , eras meu mar . Nas noites negras de frio , escutava tu passar .
Passavas bem de mansinho,devagar a deslizar . O caboclo zé fininho,nem precisava remar .
Nas tuas costas levavas,muita estória pra contar :desde o cavalo de asas , às juras de amor ao luar .
Eras tu que me levavas,para em tuas águas brincar .Eras tu que me chamavas, querendo me carregar .
Tanta vontade eu tenho, daquele tempo voltar .Hoje já a ti não venho, os meus prantos lamentar .
Eu cresci, virei adulto . O encanto se quebrou. Da criança , nem o vulto . O menino se encantou.
Foi embora nas tuas águas ,em cima de um mururé. E se perdeu nas tuas vagas , no encontro da maré .
Cobra grande o engoliu,mãe d’água o enfeitiçou.Quem sabe foi no navio ,que na enseada aportou.
Tu também , meu caro amigo , de ti mesmo descuidou.Te desgostaste contigo ?Ou comigo que aqui estou?
Aquela ilha , onde está,que mais parecia um mundo ?Olho e só vejo por lá ,mato triste e moribundo .
E o pedral onde ficava,aquele cavalo encantado,Que tinha o rabo dourado ?Tudo perdido. Acabado .
E os gaviões da montanha ?Onde foi aquela gente ?Que diferença tamanha !Tudo está tão diferente !
Que a vida nos tome a nós .Bravo rio , meu bravo mar .Tu em busca da tua foz .Eu buscando o meu lugar .
São caminhos divergentes , os que devemos trilhar .Mas por mais que eu me ausente ,sempre venho te encontrar .
Vais sempre ser o meu rio . Vais sempre ser o meu mar . Do menino que fugiu. Ao homem que vês chorar .
E quando um dia eu me for, desta para outra vida .Não chores, não sintas dor ,não será uma despedida .
Eu volto, meu caro amigo . Uma lenda há de nascer . Hei de me encontrar contigo ,logo depois que eu morrer .
Nas noites de lua cheia , se alguém te olhar vai me ver , Brincando com tuas sereias , gargalhando de prazer ...
Ícaro sem asas
Ai serras da minha terra Ai mares que só são rios Ai terras destas planícies Que planaltos querem ser São verdes estes meus vales São negras estas crateras São terras do meu viver .
Quero cantar estas plagas Quero boiar nestas vagas Mergulhar nestas chapadas Morrer nestas madrugadas . Correr por entre estas terras Dormir no cume das serras Pra depois ressuscitar Nas asas desta agonia Nestes rios que só são mar .
Como eu amo estas paragens De planícies sorrateiras De finadas cachoeiras Dos galhos das castanheiras Que hoje são invernadas Destas terras já queimadas Que hoje são capoeiras .
Que depois da coivara Se deitam nas ribanceiras E matam a sede do chão E brotam como semente Deste meu peito silente Que ampara esta solidão . A solidão destas serras Das planícies desta terra Que planaltos querem ser .
Voando nestas paisagens Feito um Ícaro sem asas Com asas no coração Com o coração nesta terra Com esta terra na mão Que afaga o verde das matas Que rola pelas ladeiras Que cai nestas capoeiras Que bebe nestes riachos Que aqui busca regaço Pro apertado coração .
Coração que é uma planície Deitado sobre esta terra Que bate e que se agonia Que baila e que rodopia Do alto desta paisagem .
Que mergulha neste rio Que treme quando faz frio Que chora quando se lança Que para quando se cansa Que levanta em frenesi Quando a vida se faz curta Quando o tempo não escuta Quando é breve este porvir .
Coração apaixonado Que grita em peito calado Que voa como andorinha Nestas terras e estas serras Nestas curvas deste rio .
Coração não te aquieta Não bate assim devagar : Explode nestas quimeras Espalha-te nestas serras Deste Sul do meu Pará !
O porco d’água
O rebojo estoura em branca vaga . A vaga em branca espuma se transforma. Na espuma se debate o porco d’água . Na água feita pedra o suor jorra , Salgando o Tocantins com o peito em mágoa .
Procura em desespero uma paragem . O aço em suas mãos às costas traça . A vida o faz nadar , não a coragem . A fé o faz viver , não a desgraça . Não o mundo o faz sonhar , mas a viagem .
O ronco do motor soa no ar . O barco em suas mãos está então . Não ouse o porco d’água fracassar . Não ousem os seus esforços serem em vão . Seus olhos logo achem onde amarrar ,
Pois cá no bolinete pronto estão, Marinheiros febris a esperar A mão do porco d’água a acenar Em sinal de sucesso e de descanso , O barco rio acima se içar .
Ele agora sossega no remanso . Como ariranha deita as cotas a remar . Mergulha, olha as pedras , na esperança De sempre um diamante a vadiar . E bóia como aninga que se lança
Do fundo para a tona em espinhel. E pula , pedra em pedra , vaga em vaga . E agarra no passeio do motor Que já em mansas águas se balança , Depois que o cabo ao bolinete se esgotou.
Num salto já está na casinhola , Pingando o Tocantins do corpo inteiro . Nem lembra mais da liça , pois agora , O Rio já manso acalma o marinheiro .
Toma um moca quentinho, em esmaltada Caneca que na lenha se ferveu. Na camarinha pisca à moça , inda espantada, Contado do rebojo que venceu.
No convés se deita olhando o Sol Que seus olhos em sonhos faz fechar . Quando os abre se espanta , é arrebol , A lua já a pouco vai brilhar .
Porco d’água , teus sonhos e tua luta , Mergulharam no castelo da Iara . De lá ninguém mais teu grito escuta . Calaram, como a Capitariquara.
Saudades de ti garboso infante . Teus feitos muito ainda hão de brilhar Tão claro como brilham os diamantes , Teus sonhos outros sonhos vão sonhar ...
Canoa tocantina
Canoa que de tardinha ,Com o Sol quase morrendo,Passa às margens da Matinha,Com o Tocantins correndo.
Desliza o Rio com carinho . O remo à popa batendo, Afunda devagarinho,Sutil rebojo fazendo.
Nas costas do velho Rio , O caboclo vai remando. Da tarde curto o pavio , Vai pra casa regressando.
As luzes do cais do porto ,Já ensaiam se acender . O vento , que é leve e solto, Vem as águas remoer .
A canoa baila solta , Na mareta que se enruga. O caboclo o remo amoita,Para ao casco não dar fuga .
Vai descendo de bubuia,Mais parece mururé.Passa em frente do fubuia, Cheirando a tucunaré .
O farol na ponta avista,Quase em casa pra chegar . O vento assopra e ele pisca, Lembrando de Cametá.
O Sol agora é finado E a canoa sombra é,Mas não tem pressa o danado . Tocantins não tem maré .
Canoa , toma cuidado !Tu não tens nem lamparina ... Facilitas um bocado , Navega pela beirinha.
No remo o caboclo descansa . Do bolso o porronca tira . A Lua pro alto avança ,Mas é no Rio que se mira .
Já na feira a barca passa E o porronca no final . O caboclo , a proa traça Na direção do Mangal.
A canoa sabe o rumo E acelera o remo o passo . O caboclo pega prumo E dá cadência ao compasso
Rema , caboclo , ligeiro !Pois enquanto tu tragavas, O vento , morno e faceiro ,Em teu barco viajava.
Se não cuidares na reta , Vais chegar na ponta grossa : A pirarara te pega E a cobra grande te enrosca .
O caboclo aperta o remo E a canoa faz bigode Num Tocantins já sereno .Afinal , o caboclo salta ,
No raso da ribanceira . A Lua já brilha alta E a canoa sobe à beira Pelo caboclo puxada .
Agora descansa em terra , Vai dormir iluminada.Ser pasto de vaga-lumes E só acordar na alvorada .
E de novo correr água ,Fazer mais uma empreitada . Esta sorte é que lhe cabe,Quando finda a madrugada .
E voltar de novo ao porto . Vai ser sempre esta a sina . Do caboclo leve e solto E da barca tocantina...
quarta-feira, 18 de maio de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Campus de Marabá/UFPA vai à luta
SEMINÁRIO: Expansão do Capital, Movimento Social e Luta Contra-Hegemônica na Amazônia
O curso de especialização em "Educação do Campo, Agroecologia e Questão Agrária na Amazônia" do Campus de Marabá / UFPA terá início no próximo dia 10 de maio (3a feira), às 08:00h, com um seminário inaugural no auditório do Campus I da UFPA em Marabá.
O seminário é aberto a todos os interessados e tratará do tema geral do curso, enfocando dois tópicos principais:
(i) a expansão do capital na Amazônia e suas consequências para a questão agrária, questão ambiental e produção de conhecimento na região e
(ii) as lutas de resistência camponesa e as pespectivas de construção de projetos alternativos de desenvolvimento.
A programação do seminário será:
08:00h - Mesa de abertura
08:30h - Debate 1 - A Expansão do Capital na Amazônia e suas Consequências
Expositor: Prof. Ariovaldo Umbelino de Oliveira (Geografia – USP)
14:00h - Debate 2 - Lutas de Resistência Camponesa e a Construção de um Projeto Contra-Hegemônico
Expositores: Via Campesina da Pan-Amazônia - representantes do Brasil, Bolívia e Equador.
Fonte: UFPA/Marabá – Coordenação do Curso
Amim Zalouth, a poesia do ontem
Fantasmas
vagueio lento pelas ruas de cimento e pedra
buscando a cada passo ,
na minha volta , a toda hora ,
o que , se sei, o tempo ido já levou embora .
Tomás Gralhada , Procópio, Hugo Piaba , Cametá.
Cururú, Ambrósio, Sinhá, Zeni, Anita Guará ,
Nicandro, Margarida , Pacheco, Honorino, Baltazar.
Joaquim Surdo , Dona Naza, Ivan Ribeiro , Aldo Maranhão,
João Rocha , Dr. Amadeu, Benedito Caolho , Pranchão,
Maneco, Taracanga, Antônia Violão ...
Antônio Farias, Zacarias...
Buscando a cada passo , a toda hora na minha volta ,
O que eu sei: o tempo ido já levou embora ...
À minha volta o que o tempo levou embora ...
João Anastácio, Irmãos Miranda, Casa Vale , Rio Tocantins.
Levou embora .
17.03.02
(10.09.80)
612 e 618, casas geminadas
de frente para o rio .
Ambas com 3 dígitos
Numa o dobro de 6,
noutra o triplo de 6.
Dessa maneira convivi
refletindo dentro de mim .
Na 612, à frente , uma porta e duas janelas .
Na 618, tres portas e nas laterais 6 janelas .
infantis, claudicantes. Juvenis, arrogantes .
foram dobradas, multiplicadas.
Na 612, a morada era uma casa simples .
Na cozinha , um fogão a lenha , geladeira a querosene .
distribuídos criteriosamente nos aposentos
a arrumação , a limpeza ,
e com mão de ferro conduzia
os afazeres domésticos
e os passos de cada um .
Na 618,o comércio .
coordenava as vendas ,
recebia amigos com café
e “dois dedos de prosa ”.
sobrecarregadas de peças de tecido ,
Anzóis que para sempre
Havia um espaço mínimo
passava e me transformava
dando asas à fantasia ,
cultivava minhas ilusões ,
Nele também cultivei e provei
os meus primeiros e inocentes vícios .
surrupiados da frente e escondidos
e que eu , sorrateiro ,
sorvia diariamente,
uma dose apenas
e alternando os sabores ,
num cálice exclusivo
o escritório de meu pai , onde ,
numa escrivaninha com porta de enrolar
demoravam arrumadas em blocos ,
No depósito ,
Saindo dos limites internos da casa e loja ,
descortinava-se um enorme quintal ,
dividido em tres etapas por portões e cercas ,
a última limitando com a rua de trás .
ávidas e barulhentas, bicar
todas as manhãs e finais das tardes .
Eram frutos doces , como eu imaginava
seria sempre a vida .
Havia também um pé de ginja ,
e um tamarineiro sempre carregado ,
Eram frutos azêdos,
travosos, ardentes , ácidos
E estava tudo ali ,
na minha frente ,
ao redor e ao alcance da mão .
A casa arrumada, pequena , aconchegante .
O comércio onde tudo era pesado – menos ou mais leve ,
medido – de menor ou maior tamanho ,
vendido – mais barato ou de maior valor .
O quintal por etapas ,
outras vezes pesados, maiores , caros .
e não alcancei a lição . (14.01.2002)
Superman
e a acender estrelas
no teu céu particular .
de que te adoro
e que meus sentimentos por ti
sejam alternados,
distintas.
Dorme, porque agora
sinto-me lógico e escuro
numa imensa cisterna universal .
Dorme profundo ,
no sentido duplo da vida
fui emboscado
e não quero que vejas
a rosa rubra derretendo
de brilhante azul metálico .
Dorme profundo ,
viaja no cosmo e
e morre.
irei beijar tua face de anjo ,
de vigilante espacial ,
Dorme profundo
serei novamente o teu herói .
Serei Superman...
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